terça-feira, 23 de março de 2010

Monumentos perdem identidade

O efeito deixado pela passagem do tempo nem sempre é sinal de degradação. Ao contrário. No caso das cidades históricas, quanto mais antigos os monumentos, mais valiosos eles se tornam. A pátina, segundo os especialistas, é justamente o elemento que leva à percepção da antiguidade.

Erguida em 1876, a Ponte de Ferro, no Centro do Recife, recebeu várias camadas de tinta ao longo dos anos. O mesmo aconteceu com o casario na Rua de São Bento, em Olinda.
Foto: Arquivo DP/D. A Press
Então não estranhe se determinada estátua de bronze estiver coberta por uma camada esverdeada. Isso não é ruim. Significa que é uma peça antiga. Também não estranhe aquele "pretume" na fachada das igrejas seculares. Isso é normal. O limiar, no entanto, entre o que é antigo e o que é degradante está na técnica de conservação. Uma discussão que vem ganhando fôlego em Recife e Olinda, cidades históricas e com grande acervo patrimonial. Especialistas reclamam que essas restaurações vêm descaracterizando os monumentos.

Arquitetos, urbanistas, restauradores e professores que fazem parte do Centro de Estudos e Conservação Integrada (Ceci), com sede em Olinda, fazem um alerta contra a plastificaçãodos monumentos pelo uso de novos materiais, substitutos dos tradicionais e originais ao monumento. A Ponte de Ferro, inaugurada em 1876, que liga o bairro Santo Antônio ao da Boa Vista, com estrutura metálica fabricada na Inglaterra, já recebeu várias camadas de pinturas ao longo dos anos. "É uma estrutura antiga com cara de nova. Ela poderia ter sido conservada sem perder a sua originalidade", afirmou o arquiteto Jorge Tinoco.

As transformações nas cidades, entretanto, são inevitáveis. Não há como desconsiderar as atualizações nas edificações e tecidos históricos. "É imprescindível considerar os aspectos e dimensões em que a pátina se manifesta. É uma decisão, portanto, que deve ser tomada caso a caso", explicou o arquiteto e urbanista Sílvio Zancheti.

Um outro exemplo é a pintura do casario da Rua São Bento, em Olinda, incluída no projeto das tintas Coral, iniciada há poucas semanas. Segundo eles, esse trabalho não foi adequado, mesmo com aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional(Iphan). "A pintura em massa sugere que o conjunto tenha acabado de ser produzido. Não somos contra a pintura, mas é recomendado uma gradação e no caso do casario de Olinda, a pintura deveria ser em cal", afirmou Zancheti.

O superintendente do Iphan, Frederico Almeida, reconhece a importância da pátina na cena urbana, mas segundo ele, não há um consenso sobre essa questão. "Essa é uma discussão mundial. O Iphan opta por fazer o restauro de forma completa. Não deixamos de fazer a pintura e em alguns casos usamos a tinta látex nas fachadas externas por causa da durabilidade. Há lugares que se torna inviável renovar a pintura a cal a cada seis meses", explicou.

Mosteiro - No caso do Mosteiro de São Bento, em Olinda, que também irá receber uma nova camada de pintura, os especialistas do Ceci, chamam atenção para que seja respeitada a originalidade do monumento. "A gente espera que a pintura seja a cal e não usem tintas a base de PVA", afirmou Zancheti. Segundo o arqueólogo do Iphan, Fábio Cavalcanti, a condiçãopara que o monumento seja pintado é o uso do cal na fachada.

Um exemplo positivo de preservação da pátina, apontado por Sílvio Zancheti é o restauro da sacristia da Ordem Terceira de São Francisco, no Convento de São Francisco, em Olinda. "É uma questão cultural. Há quem defenda uma nova pintura no local, mas nós optamos em fazer a conservação preservando a pátina. Até mesmo onde foi danificado nós restauramos sem alterar que houve um processo de desgaste", revelou.

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